“Todo relacionamento entre pessoas, cidades ou qualquer ente abstrato pode ser tratado matematicamente”. É o que afirma o agente da Polícia Federal, Bruno Cunha. Em seu doutorado, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – (UFRGS), o agente federal desenvolveu um estudo que relaciona a Física, a Matemática e os algoritmos no combate ao crime organizado. Seu trabalho já tem sido aplicado à operação “Darknet” – deflagrada recentemente pela PF no Rio Grande do Sul para combater uma rede de distribuição de pornografia infantil na internet.

Em sua tese, o agente federal defende que, nas investigações, o mais eficiente é focar em pessoas que fazem a conexão entre grandes grupos, chamados “laços fracos”. Esse ponto focal nem sempre é o mais conectado ou o que tem maior poder de decisão em uma organização social. Esse indivíduo, com menor poder de decisão, tem grande habilidade de conectar pessoas e grupos. “Muitas vezes o criminoso que faz a ligação entre aglomerados de pessoas é considerado menos importante por não ser o líder de uma organização criminosa.

É um pouco diferente do que estamos acostumados. Ultimamente o foco tem sido o líder, como por exemplo, um Fernandinho Beira Mar”, argumenta Bruno.

No campo multidisciplinar da Network Science, a otimização de procedimentos para a quebra eficiente de redes complexas está atraindo muita atenção do ponto de vista prático. Um método baseado em módulos para fragmentar eficientemente redes complexas. O procedimento primeiro identifica comunidades topológicas através das quais a rede pode ser representada usando um algoritmo heurístico bem estabelecido de descoberta da comunidade. Então, apenas os nós que participam de links intercomunitários são removidos por ordem decrescente de sua centralidade de interligação. Ilustramos o método aplicando-o a uma variedade de exemplos nos campos social, de infra-estrutura e biológicos. Mostra-se que a abordagem baseada em módulos sempre supera os ataques direcionados a vértices com base no grau de nó ou no ranking de centralidade, com ganhos de eficiência fortemente relacionados à modularidade da rede. 

A robustez de uma rede geralmente está associada à funcionalidade estrutural do sistema, por isso está diretamente relacionada à fração de vértices ou arestas que devem ser removidas para impedir que a rede funcione como um todo – por exemplo, quando a informação não pode se propagar em toda a rede. Por exemplo, a falha dos roteadores da Internet, a vacinação de indivíduos para evitar a propagação de uma doença, e a luta contra o crime organizado e os grupos terroristas podem ser descritas por procedimentos em que um certo número de vértices na rede é removido.

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Em termos de procedimento de ataque, o desafio é encontrar uma lista de vértices ou bordas cuja remoção causaria danos elevados à rede. Por outro lado, se o objetivo é proteger uma rede de ataques, saber tal lista ajudaria a elaborar uma estratégia eficiente de defesa. Por isso, a questão que queremos abordar nesta contribuição é: como causar o mesmo dano que o resultante de um ataque baseado em centralidade tradicional em uma determinada rede, mas removendo uma quantidade menor de nós ou bordas?

Matematicamente, o estudo prova que a distribuição estatística dos relacionamentos entre os participantes de uma organização social pode determinar a sua força ou fragilidade – o que as tornam particularmente fortes a ataques aleatórios e frágeis a ataques dirigidos aos indivíduos chave. “A física entra exatamente nesse ponto, ao identificar de maneira algorítmica os indivíduos mais importantes em uma estrutura de rede criminal. Para tanto utilizam-se métodos típicos da física estatística, da matemática aplicada e da teoria de redes”, explica.

Para comprovar sua tese, o agente federal cita como exemplo a Operação Lava Jato – onde tudo começou com a prisão de doleiros e não de grandes líderes políticos ou empresários. “Os pontos de comunicação na verdade são as colas que unem pessoas que não aparecem tanto, mas que são os que fazem com que as organizações criminosas se fortaleçam do ponto de vista matemático”, garante o doutorando. Bruno afirma ainda que esse tipo de conclusão deveria entrar no nível gerencial como uma proposta de combate ao crime e passar a ser usado não apenas pela Polícia Federal, mas por todos os órgãos que atuam na segurança pública.

Para compor seu estudo, Bruno se baseou em bibliografias como o artigo “Fast Fragmentation of Networks Using Module – Based Attacks” publicado no Plos One e o artigo “Performance of attack strategies on modular networks” publicado no Cornel University Library.

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